A
indicação desse mito ou narração de caráter moral,
não vem no sentido de reforçar a história oficial ou
as narrativas antigas cujo sentido originário
perderam-se nos tempos. Mas tão somente uma forma de
abordar uma temática, utilizando imagens e metáforas
para fins de esclarecimentos. De acordo com a interpretação
oficial: Ifigênia é filha de Agamemnão, rei grego, e
de sua esposa Clitemnestra. Agamemnão é comandante do
exército grego, que se reunira em Áulide para sair
para a conquista de Tróia. Não obstante, devido à ação
dos deuses, produziu-se uma calmaria de tal maneira que
o exército não pôde partir. Perguntando aos deuses
pela razão, a deusa Minerva (ou Diana) comunica que
somente o sacrifício de Ifigênia, a filha de Agamenão,
pode apaziguar sua fúria. O exército exige que se faça
esse sacrifício. Em conseqüência, Agamemnão traz
Ifigênia a Áulide, enganando Clitemnestra para que a
entregue.
Chegando
a Áulide, ele sacrifica sua filha, a primogênita de
seus filhos, à deusa Minerva. Realizado o sacrifício,
o vento volta, o exército parte, conquista e destrói
Tróia. 118
Agamemnão
sacrifica Ifigênia, e, não obstante, Minerva seqüestra
Ifigênia sem que ele note e põe em seu lugar um animal
de sacrifício. Minerva leva Ifigênia a uma ilha
selvagem dos tauros, e esta se transforma em uma
sacerdotisa de Minerva, na corte de Toante, rei dos
tauros.
Franz
J. Hinkelammert(1995), em: “Sacrifícios humanos e
sociedade ocidental: LÚCIFER E A BESTA” 119
, traça a interpretação e a força desse mito desde a
Antigüidade – Ifigênia grega - até o Iluminismo –
Ifigênia burguesa, ocidental, “cristianizada” ou
“iluminada”/iluminista.
As várias interpretações buscam compreender o sacrifício
de Ifigênia. Por isso, indagamos: Qual a adequação do
Mito de Ifigênia na condenação de Giordano Bruno?
Considerando que o mito transcende o tempo e o espaço,
podemos transpor o papel de Ifigênia para Giordano
Bruno, o de Agamemnão para a Igreja e a mãe
Clitemnestra, que se opõe ao sacrifício da filha, pode
ser indicada como o pensamento burguês. Este, na Idade
Moderna, resgata o sacrifício de Bruno em nome da
liberdade de pensamento; opõe-se ao dogmatismo católico
e ao absolutismo real, dando surgimento ao
Iluminismo.
Na
interpretação grega do mito, vemos que Ifigênia é
definida como uma pessoa agressiva, selvagem e
descontrolada. Apresenta-se desta forma para fugir ao
sacrifício que lhe foi imputado por seu pai. Assim a
Igreja olhava para Giordano Bruno, pela sua forma altiva
de denunciar o dogmatismo, questionar o princípio de
autoridade e buscar a Verdade. Isso pode ser reafirmado
pelo peso histórico da sua condenação: “Frade apóstata,
herético impenitente, pertinaz e obstinado”.
De
acordo com a concepção ocidental, “civilizada”
e que se denomina “cristã” 120,
Ifigênia é apresentada como a redentora: aquela que é
capaz de um sacrifício para salvar os seus. Essa é a
concepção burguesa acerca de Giordano Bruno
considerado “arauto e mártir de uma nova filosofia”.
(118) Franz J. Hinkelammert. Sacrifícios
humanos e sociedade ocidental: LÚCIFER E A BESTA, São
Paulo: PAULUS, 1995, p. 7-14.
(119) Id. ibid., p. 7.
(120) Aqui fazemos uma alusão ao cristianismo deturpado
pelas igrejas institucionalizadas, que em seu nome
organizaram as cruzadas, as guerras de religião e
acenderam as fogueiras contra os hereges, os muçulmanos
e centenas de mulheres. Referimo-nos também às ações
da burguesia que se proclama “cristã”, se alia às
igrejas e impõem o seu domínio sobre os povos,
procurando demonstrar a sua “superioridade”, como
bem atesta a História.
E
a Igreja, como atua?
A
partir do desenvolvimento do mito e da interpretação
de Hinkelammert(1995), verificamos que, após sacrificar
a sua filha, Agamemnão se transforma em um herói que
tudo fez para defender a Grécia e destruir Tróia.
Consolida, dessa forma, a hegemonia grega.
Não
há mais possibilidade de retorno ou de mudança nos
planos: se não conquistar Tróia, ele morre. Se o seu
sacrifício como “pai” for em vão, ele será apenas
o assassino de sua filha. Porém, se conseguir vencer a
guerra, estará justificado: será um herói e não um
assassino.
Assim
agiu a Igreja, não só contra Giordano Bruno, mas
contra os “hereges e os infiéis”. Ao condená-los
à fogueira, em se tratando dos “hereges”, ou
comandando uma guerra santa, em relação aos “infiéis”,
a Igreja na verdade se proclamou “defensora do
cristianismo” e não uma assassina. Se a Igreja
vencesse essas duas batalhas estaria justificada diante
de si mesma e da história. Todos esses sacrifícios e
condenações ela o fez em “nome do Criador”; isso
legitimou a denominação de “defensora da fé”.
“Quem se atreveria a lutar com divindade tão poderosa?
121
Identificando
Minerva à História, como lutar contra a sua
inexorabilidade e mudar o seu rumo?
Ao
passar grande parte de sua vida como um errante por
quase toda a Europa, Giordano Bruno inicia a sua luta
contra a força da Igreja e o fatalismo histórico.
Aquela pode-se enfrentar; este pode-se mudar. A atuação
de Bruno faz-se, portanto, em nome da liberdade.
Nesse
contexto, a liberdade não existe só para Bruno. À
Igreja pertence também a “liberdade de defender a
religião” e o faz, mesmo que seja contra o
Cristianismo, que tem como regra máxima o Amor ao próximo
e a condenação a toda e qualquer violência (“Não
matarás!!!”).
A
Igreja proclama a iberdade de condenar e sacrificar
pessoas, mesmo que precise se chocar com os preceitos
que constituem o seu fundamento. E assim age porque
possui autoridade. Como “defensora da fé”, carrega
em si mesma a autoridade que lhe fora “outorgada” e,
sendo infalível, não admite questionamentos ou
contestações. Assim age, em relação àqueles que ela
denomina “hereges” ou “infiéis”.
Mas,
como agir quando o fundamento da religião proíbe toda
forma de violência e sacrifícios? Como justificá-los?
Voltemos
à explicação do mito:
“A Lei de Minerva que proíbe os sacrifícios humanos
religiosos, proíbe exclusivamente estes. Em sua forma não
religiosa mantém-se o sacrifício humano, porque não
apareceu nenhuma liberdade que consista em não
sacrificar homens.” 122
A
saída encontrada pela Igreja é secularizar os
Tribunais e para não “sujar as mãos”, entrega os
hereges às autoridades civis. Aos “infiéis”
declara um “santo combate”, através das guerras de
religião, contra as quais se insurge Giordano Bruno.
(121) Ifigênia, referindo-se à Minerva, deusa que exigia o seu sacrifício. Nisso concordava com seu pai que deveria ser sacrificada. É um ato de resignação; um ato heróico em nome do seu povo. Aqui temos a representação da Ifigênia ocidentalizada, “cristã”, refletindo exatamente a visão que a burguesia e a Igreja (após a Idade Média) passaram a defender: cristianismo como sinônimo de sacrifício.
(122) Id. ibid., p. 17.
Como
resolver os problemas dos hereges sem se colocar contra
a Lei Divina? Tornar os sacrifícios plenamente justificáveis,
dar-lhes um valor espiritual, qual seja, libertar a alma
dos “hereges” da influência maligna e em se
tratando dos “infiéis”, libertar a Terra Santa.
Passa-se,
então, a exaltar o sacrifício para salvar a instituição
religiosa, através da retomada do Tribunal do Santo Ofício.
Tornava-se necessário salvar a humanidade dos inimigos
de Cristo; essa era a tarefa da Igreja. Daí a sua
autoridade para sacrificá-los em nome do cristianismo,
a Religião do Amor.
Formulavam-se
as justificativas para os sacrifícios. Essa era a
liberdade da Igreja ou ela poderia ter escolhido o
caminho da tolerância? Se ela possui a liberdade do não-sacrifício,
por que escolheu a outra?
Em
se tratando de Giordano Bruno, a Igreja não se manteria
, pois a Cosmologia bruniana, - Infinitude do Universo e
Pluralidade dos Mundos -, aliada aos questionamentos dos
dogmas, destronava as concepções teológicas do seu
tempo.
De
acordo com as teologias católica e reformada, Jesus
Cristo morreu para redimir o mundo. Assim sendo, sua
morte extingüiria toda a culpa humana, mas também
tornava desnecessários novos sacrifícios.
Se
essa Teologia correspondia, à verdade, então por que
ocorreram novas condenações? Se o sacrifício de Jesus
foi necessário para expurgar todos os sacrifícios
passados e evitar os futuros, por que a Igreja continuou
a sacrificar pessoas?
Se
realmente o sacrifício foi necessário para apagar as
culpas, por que a humanidade não se tornou livre,
tolerante e justa? Por que a humanidade não pôs um fim
às discórdias, guerras e massacres de toda ordem?
Talvez
devamos chegar a uma conclusão mais plausível: a morte
de Jesus Cristo na cruz, não deveria ter ocorrido. Ela
não representou a redenção da humanidade, mas ampliou
a sua culpa diante do Criador. Sim, a humanidade é
responsável pelo assassinato do Filho de Deus, o
Messias, que veio para nos indicar o caminho do Amor e
da Salvação. Salvar-nos de que ou de quem? De nós
mesmos, da arrogância, da violência, da miséria, do
raciocínio extremado, desprovido de humanidade e
desligado da intuição.
E
o sacrifício de Jesus Cristo qual foi? Foi efetivamente
descer da Região Divina onde se encontrava, para o
plano da matéria. Descer para um plano completamente
denso. O seu grande sacrifício foi pregar para uma
humanidade surda, porque preocupada demais com o plano
material, mas nunca morrer de forma tão brutal.
Aqui
reside a nossa culpa, haja visto que no Evangelho de João,
capítulo 19, versículo 7, no diálogo entre os
sacerdotes judeus e Pilatos encontramos: “Nós
temos uma lei, e segundo esta lei ele deve morrer porque
se fez Filho de Deus.” De fato, os sacerdotes dizem:
“Nós temos uma lei...” Uma lei humana que
determina a morte de Jesus Cristo; não a Vontade do
Pai.
Prosseguindo
na reflexão vemos que Pilatos vai até Jesus e o
interpela:
“De
onde tu és? Mas Jesus não lhe deu resposta alguma.
Pilatos lhe disse então: É comigo que te recusas a
falar? Não sabes que tenho o poder de te crucificar?
Mas Jesus lhe respondeu: Não terias poder algum sobre
mim se não te houvesse sido dado do alto; e, por isso
mesmo, o que me entregou a ti tem um pecado maior.” 123
Como
atesta o Evangelista, a morte de Jesus não era natural,
nem foi determinada pelo Criador, mas de inteira
responsabilidade dos homens; um pecado maior, por se
tratar do assassinato do Filho de Deus. Lucas, em seu
Evangelho, capítulo 23, versículos, 33 e 34, relata o
momento da crucificação e relembra a invocação de
Jesus: “Pai, perdoa-lhes porque eles não sabem o que
fazem.” Por esta citação está claro que a morte de
Jesus foi um ato de insanidade, loucura ou mesmo
cegueira humana e não a Vontade do Criador.
De
fato, a humanidade cometeu um assassinato e até os dias
de hoje não adquiriu consciência; ao contrário,
rejeita-a, porque ela pressupõe mudanças profundas: “Tornai-vos
perfeitos como Vosso Pai é Perfeito”.
O
ser consciente exige a transformação: “tornar-se
homem novo”. Abandonar os maus hábitos como aquele
que abandona uma veste que não mais serve; abandonar os
prazeres, as paixões e os vícios. Pressupõe uma mudança
interior, radical. Abandonar os cultos exteriores e
servir ao Criador em Luz e em Verdade; buscar a pureza,
a misericórdia , a justiça e a paz, sem turbar o coração
diante dos “apelos” do mundo material. Essa é a
mudança que nos é exigida e contra a qual relutamos,
pois estamos com a vista turva e a nossa alma se
encontra na embriaguez. É o conhecimento de si mesmo,
anunciado por Sócrates e a correção dos erros,
exortada por Jesus:
“Eu
vos digo a fim de que vós vos conheçais. Pois o reino
dos céus se assemelha a espiga de trigo que cresceu em
campo, e chegada à maturidade, semeou seu fruto e
novamente encheu o campo para outro ano. Vós também,
apressai-vos em segar para vós uma espiga de trigo, a
fim de serdes preenchidos pelo reino.” 124
Outro
aspecto que reforça a rejeição do ser humano em se
tornar consciente do seu erro acerca do assassinato de
Jesus, é o fato de que ele - o ser humano –ainda vive
na lógica da Idade Média, que é a exaltação do
sacrifício.125
E aí reside o seu erro, cristalizado como a estátua de
sal em meio à destruição de Sodoma e Gomorra.
Na
exaltação do sacrifício de Jesus Cristo pela
humanidade, a Igreja considera que não pode mais haver
nenhum sacrifício, pois “cada novo sacrifício
seria uma nova crucificação de Cristo.” 126
(123) Jo, 19, 9-11
(124) R. Kuntzmann & J.D. Dubois. Nag Hamadi – O Evangelho de Tomé. p. 28.
(125) Frazn Hinkerlammert, op. cit., p. 18
(126) Id. ibid., p. 19
Se
de fato o sacrifício de Jesus Cristo redimiu a
humanidade por que ela não norteia a sua vida pela ética
do amor deixada por Ele? Por que ainda há miséria e
sofrimento de toda ordem?
Entre
tantas respostas que podem surgir a este questionamento,
indicamos uma: a teologia medieval fundamenta-se no
sacrifício. Por isso em vez de buscar um mundo sem
sacrifícios, exige novos.
Em
Hinkerlammert(1995) 127
encontramos:
“A idéia de que os que crucificam Cristo o
abandonam e nele não crêem, recebe desta forma um
fundo extremamente agressivo. Nunca mais Cristo deve ser
crucificado. No entanto, eles voltam a crucificá-lo.
Transformam-se, portanto, em inimigos de Deus, aos quais
se censura que estão golpeando, flagelando e ofendendo
a Cristo. Não deve haver outro sacrifício, e, não
obstante, eles sacrificam de novo a Cristo.”
Em
Hebreus, capítulo 6, versículos 4 a 6, encontramos:
“De fato, os que uma vez foram iluminados – que
saborearam o dom celeste, receberam o Espírito Santo,
experimentaram a beleza da palavra de Deus e as forças
do mundo que há de vir – e, não obstante, decaíram,
é impossível que renovem a conversão uma segundo vez,
porque de sua parte crucificam novamente o Filho de Deus
e o expõem às injúrias.”
Se
de fato, o sacrifício de Cristo foi necessário por que
então a Epístola aos Hebreus exorta a uma segunda
conversão para que não se sacrifique novamente o Filho
de Deus?
Outra
indicação contra os sacrifícios está em Isaías, Capítulo
1, Versículos 10-20ss:
“Ouvi
a palavra do Senhor, ó grandes de Sodoma,
dai ouvidos à instrução do nosso Deus, povo de
Gomorra.
De que me serve a multidão dos vossos sacrifícios? Diz
o Senhor.
Os holocaustos de carneiros, a gordura dos bezerros,/
estou farto deles.
O sangue dos touros, dos cordeiros, e dos bodes,/não os
quero mais.
Quando vindes apresentar-vos diante de mim,
Quem vos pede que piseis os meus átrios?
Cessai de trazer oferendas vãs: a fumaça, tenho-lhe
horror!
Lua nova, sábado, convocação de assembléia.../ não
agüento mais crimes e festas.
As vossas luas novas e as vossas solenidades,
detesto-as,/são um fardo para mim, estou farto de
suportá-las.
Quando estendeis as mãos, cubro os olhos, podeis
multiplicar as orações, não as escuto: vossas mãos
estão cheias de sangue.
Lavai-vos, purificai-vos. Tirai do alcance do meu olhar
as vossas más ações, /cessai de fazer o mal. Aprendei
a fazer o bem, procurai a justiça, chamai à razão o
espoliador, fazei justiça ao órfão, tomai a defesa da
viúva.”
Se
Deus repudia dessa forma os sacrifícios de animais
feitos em “sua honra” 128
, muito mais veio a repudiar o sacrifício do Seu Filho
Divino. Se Ele repudia o sacrifício de animais em seu
“louvor”, por que haveria de entregar o Seu Filho
daquela forma? Se Ele cuida tão bem dos homens
pecadores e decaídos e ainda considerados de pouca fé,
como não cuidaria mais ainda de Seu Filho? Por que o
condenaria a morrer em nossas mãos? Valemos mais que o
Seu Divino Filho? Decerto que não!!!
A
reação de toda a natureza ao assassinato de Jesus,
citado em Lucas, Marcos e Mateus, demonstra que foi uma
ação criminosa da humanidade e, portanto, carregada de
culpa. Vejamos então:
“Era
já quase meio-dia e houve trevas sobre toda a terra as
três horas da tarde, tendo o sol desaparecido. Então o
véu do santuário se rasgou pelo meio; Jesus deu um
grande grito; ele disse: Pai, em tuas mãos entrego o
meu espírito. E com essas palavras, expirou.” 129
<(127) Ibid. p. 20
(128) Indicamos aqui um questionamento: como pode o sacrifício agradar ao Ser Criador, que indicou a seguinte norma ética: “Não matarás! “? Aqui reside o grande desvio das Igrejas e suas teologias que refletem violência e uma idéia distorcida do mesmo.
(129) Lucas, 23,44-49; Marcos 16, 33-41; Mateus, 27, 45-61
Tendo
o véu do santuário se rasgado por causa da morte de
Jesus, isso demonstra que a humanidade não só desafiou
o poder do Criador, mas reafirmou que não queria ouvir
a sua Palavra. Na verdade, isso significa que, por esse
ato, os seres “humanos” afastaram-se cada vez mais
Dele. Não podemos conceber que, a partir da morte de
Jesus e ao rasgar-se o véu, a aliança com o Altíssimo,
tenha se fortalecido, como quer fazer crer boa parte das
igrejas.
A
liberdade da Igreja Medieval consistia em evitar que
novos sacrifícios fossem realizados, para que o
“reino” se implantasse na Terra. De que reino
estamos falando? Um reino temporal, inserido na História
e não um reino transcendente. Esse reino temporal
inicia-se quando a Igreja se alia ao poder político e
objetiva iniciar um “reino cristão”; isso se
reflete historicamente pela legitimação do sacrifício
dos “hereges” e “infiéis”, considerados
inimigos da fé. Nesse período, vemos a consolidação
do seu poder temporal e institucional através da ênfase
aos sacrifícios.
A
liberdade da Igreja está alicerçada na sua autoridade
para julgar e condenar. Ela possui a autoridade de
trazer de volta os sacrifícios humanos; nisso se
constitui sua autoridade/liberdade.
Possuía,
ainda, a liberdade de interpretar as escrituras de
acordo com seus interesses e ignorar a Lei do Amor e a
condenação dos sacrifícios (Não matarás!!!). Ignora
também Isaías.130
Consideramos,
pois, que a liberdade da Igreja se torna concreta por
sua autoridade. Porém, assim não deveria ser; ela
poderia se orientar pelas Leis da Criação. Não
somente ela, mas toda a humanidade.
Sendo,
pois, as igrejas um reflexo da própria humanidade,
podemos entender por que a maioria delas comete crimes
em nome do Altíssimo.
Em
vez de se apoiar na autoridade/liberdade, a Igreja
poderia ter se fundamentado no Amor/Liberdade. Se assim
tivesse feito, não teria se transformado na igreja que
persegue, mas na Igreja que cuida, já que o Amor
pressupõe cuidados.
E
ela exerceu a sua autoridade/liberdade até o fim, a
ponto de, na Idade Moderna, reacender as fogueiras da
Inquisição.
Essa
foi a igreja contra a qual se insurgiu Giordano Bruno;
uma igreja que, para efetivar a “liberdade”, se
utiliza do princípio de autoridade e do dogmatismo. Ao
princípio autoridade/liberdade, Giordano Bruno opõe
Verdade/Liberdade.
Para
ele a única forma de ser livre era encontrando a
Verdade, que está inscrita na natureza e no coração
dos seres humanos.
A
Verdade que faz daqueles que a encontram
bem-aventurados, como afirmou Jesus; que está presente
na natureza, porque ela guarda a Palavra e reflete a
Vontade do Criador, ao contrário dos seres humanos que
procuram fazer não a Vontade Divina mas a própria
vontade.
Dentre todas as palavras proferidas pelo Mestre,
relembramos a citação conhecida como o Sermão da
Montanha. Mais uma vez a indicação da natureza, como
receptáculo do Divino. A natureza que guarda em si
mesma, a beleza, a pureza, a adequação de seu atuar de
acordo com a Lei Divina. “E Jesus falou:
Bem
aventurados aqueles que aceitam com simplicidade o que
é verdadeiro, pois deles é o Reino dos Céus.
Não cismeis e não sutilizeis acerca de minhas
palavras, pois assim jamais chegaríeis a um fim. Não
faleis aos vossos semelhantes daquilo que estas palavras
despertam em vós; porque sendo eles diferentes de vós
em sua espécie, falariam tão somente daquilo que é próprio
a eles e assim os confundiriam!
Bem-aventurados os homens que são pacientes e afáveis,
pois eles dominarão a Terra.
Aprendei a esperar e aprendei a ser sóbrios, então
tereis em vós o poder para dominar outros. Vossa própria
integridade ensinará os outros!
Bem-aventurados os que têm de curtir sofrimento, pois
serão consolados!
Quando pensardes estar sofrendo injustamente, volvei o
olhar para o vosso próximo e reparai todo o mal que lhe
fizestes algum dia, mesmo julgando ter razão! Criatura
alguma tem o direito de fazer outra sofrer. Se neste
ponto fordes puros, criatura alguma vos fará sofrer
injustamente; sentir-se-ão envergonhados diante de
vossa grandeza espiritual!
Bem-aventurados os misericordiosos, pois eles alcançarão
misericórdia!
Não vos enganeis, entretanto, praticando falsa misericórdia,
mas considerai se a vossa boa vontade é verdadeiramente
proveitosa aos homens!
Bem-aventurados os pacíficos, pois serão denominados
filhos de Deus.
Para possuir a paz íntima, para transmiti-la aos seus
semelhantes, é necessário tal pureza de alma, que
poucas criaturas, quando ainda na Terra, poderão ser
denominadas filhos de Deus. Uma criatura que encerra em
si a verdadeira paz que provém do Divino, será para os
seus semelhantes bálsamo e alívio, curará as suas
feridas apenas com a sua presença!
Bem-aventurados os que sofrem, por amor à justiça,
pois deles é o Reino dos Céus!
Sofrer pela justiça significa sofrer pela verdade.
Arcar com tudo, tudo vencer, para poder permanecer
verdadeiro, é o que de mais árduo existe para o homem
durante a sua peregrinação. Significa tudo: viver com
justiça, viver com sinceridade até nas mínimas
coisas. Custará muita luta, muito sofrimento, mas será
viver a vida, vivê-la verdadeiramente, durante toda a
sua peregrinação. É assim que deve ser o seu proceder
para que lhe seja franqueado o caminho que leva ao Reino
dos Céus.
Bem-aventurados os puros de coração, pois eles verão
Deus.
Estas palavras encerram tudo, encerram o que de mais
elevado o homem pode alcançar: ver Deus em suas obras.
O seu coração deve ser puro, límpido como um cristal,
para que nenhuma turvação o impeça de ver. Ver é
reconhecer! O homem cujo coração é puro, tê-lo-á
conseguido; ele poderia ascender à Luz.” 131
A
idéia de Liberdade aqui apresentada nos remete a uma
reflexão sobre a escolástica e o pensamento aristotélico.
Podemos considerar que os modernos travaram uma longa
controvérsia com o aristotelismo e que Giordano Bruno não
foi uma voz solitária, como algumas vezes nos faz crer
o pensamento tradicional.
Em
Rossi encontramos: “Renovou-se na Grécia a soberba
pretensão de Adão e os homens perderam mais uma vez o
seu domínio sobre a criação.” 132
Deparamo-nos
com as seguintes categorias: queda, pecado, razão e
dominação. Qual a soberba de Adão que se renovou na
Grécia ou mais precisamente em Aristóteles? A busca do
saber em si mesmo, desprovida de intuição ou da atuação
da Força Divina. Não é senão o homem, que fecha as
portas do seu intelecto à atuação da Graça.
“É
necessário ouvir a voz da natureza!” – Nessas
palavras proferidas por Giordano Bruno havia também um
combate ao aristotelismo que situa a razão como única
explicação do mundo. A Escolástica, ao buscar
fundamento em Aristóteles, construiu – segundo Rossi
-, uma “teologia racional”, abandonando o grande
livro da natureza, na qual o Criador manifesta a sua potência.133
A
razão, vista como um fim em si mesmo, transformou-se ao
longo da história humana em um instrumento de justificação
do poder de uns sobre outros: o direito à propriedade,
o direito de submeter ao capricho e à vontade humana
toda a natureza. Dominar é a expressão maior da razão
instrumentalizada, da razão como um fim em si
mesma.
(130) Indicado na página 77.
(131) O Livro de Jesus, o Amor de Deus. Ordem do Graal na Terra, p. 258-260
(132) Paolo Rossi, A Ciência e a Filosofia dos Modernos, São Paulo: UNESP, 1992, p. 67
Vivemos
um momento em que os homens destroem a si mesmos e a
natureza. Um período de barbárie, que pode ser
definido pela ânsia do poder político e econômico, a
adoração do dinheiro e da propriedade, justificando a
destruição, tanto da natureza humana, quanto da
natureza física. A partir do endeusamento da razão
instrumental ou raciocínio desprovido de intuição
(Graça Divina), explica-se a destruição causada pelo
ser humano no decorrer de toda a sua História. É a razão
instrumentalizada que afasta o homem da natureza e do
Criador. Ao dominar todas as formas de vida, matando,
escravizado e torturando, o homem não pode se aproximar
do Sumo Bem.
Em
vez de adaptar o seu comportamento às Leis Universais,
os seres humanos, guiados pela razão instrumental,
criaram um “deus” que satisfizesse os seus desejos e
não se colocasse contra os seus interesses. Que
aceitasse os sacrifícios de animais, se nos reportarmos
à Antigüidade, ou ainda sacrifícios humanos, como se
deu na Idade Média. Tudo, em sua “honra” e glória”
!
Pensamos
no Altíssimo, como um ser com qualidades humanas, no
lugar de buscarmos uma identificação com tudo o que é
natural. Adaptamos a Verdade Revelada pelos grandes
profetas e místicos aos nossos interesses políticos e
econômicos. No que se refere às religiões, nos
limitamos a criar instituições.
Não
é essa a razão da crítica à escolástica? Sua
instrumentalização a partir de Aristóteles? Explicar
a Potência Divina através da razão instrumental não
será o caminho mais fácil para d´Ele se afastar?
Giordano
Bruno, ao repudiar o dogmatismo, a ortodoxia e o
aristotelismo, o fazia não em seu nome, não de forma
isolada de outros pensadores, mas expressou o espírito
do seu tempo e se deixou guiar pela Voz do Espírito
(intuição ou Graça Divina). Para ele, o aristotelismo
representava tudo o que é morto e seco no Universo.
Confrontava-se com a escolástica, que identificava a
Perfeição com o motor imóvel. Para Bruno, o Universo
representava um Todo no qual nada é imóvel, muito
menos a Terra. Esse movimento, porém, não era apenas
de natureza mecânica, mas expressava um princípio anímico,
inerente a todos os seres.
Abbagnano
considera, a partir da explicação tomista, que “o
aristotelismo torna-se flexível e dócil a todas as
exigências da explicação dogmática...” 134
A
partir dessa interpretação podemos compreender a
divergência de Bruno com a escolástica, já que este
combatia o dogmatismo como forma de reafirmação da
Verdade.
Torna-se
lógico concluir que o dogmatismo não se coaduna com a
Verdade, pois esta pressupõe Liberdade. Como pode a
escolástica expressar essa liberdade, se em sua essência
encontra-se a explicação dogmática?
Como
enfatiza Abbagnano, “Para além desse ponto, só
existe a verdade sobrenatural da fé. Integrar a
filosofia e a fé, a obra de Aristóteles e a verdade
revelada – por Deus ao homem e de que a Igreja é
depositária, - é tarefa a que S. Tomás se propõe” 135
A
realização dessa tarefa supõe uma separação entre
Filosofia e Teologia; entre o pensamento lógico e a
explicação do mundo.
Não
seguiremos o caminho da discussão dos objetos das
respectivas ciências ou da importância de cada uma
delas para a explicação do mundo e do Criador.
Pretendemos eleger como base da discussão a idéia de
“separação”, que se traduz numa
“compreensão” do mundo, dos seres vivos e do
planeta, isolados da Totalidade. De seres humanos
separados da natureza e das Leis da Criação. Essa
atitude, representa uma ruptura com o sagrado, e com Lei
Natural Universal, à qual deveríamos estar ligados de
forma livre e consciente, o que nunca traria a sensação
de submissão que muitos sentem, principalmente no que
se refere à religião institucionalizada.
Ao
nos “separarmos “ do Todo, separamos também religião,
ética, política e vida. Nada se relaciona. Isso torna
as coisas mais difíceis do ponto de vista social, pois
não pressupõe ligação com a Totalidade. Do ponto de
vista individual, há uma tendência a acomodar a religião,
a ética, a política aos nossos desejos.
Há,
portanto, o fortalecimento dos anseios individuais em
detrimento dos coletivos; do ego em detrimento das ações
altruístas; da mentira como uma substituta da Verdade;
do dogmatismo como substituto da liberdade e das leis
humanas como substitutas da Lei Divina.
Em
detrimento da Verdade Universal, nos apegamos à
“verdade” da religião institucionalizada, que em vários
momentos históricos buscou a sua expressão na violência,
na total ausência da liberdade e na negação do
Amor.
Tudo
está interligado. O Criador está fora do mundo, e ao
mesmo tempo dentro dele, através de suas Leis. Ele não
se confunde com o mundo, mas a ele se revela através da
natureza e dos seres vivos. A Terra é um organismo
vivo! Desta forma Bruno compreendia a ação do Criador
sobre o mundo. Embora não possamos compreendê-Lo,
podemos identificá-Lo e perceber a sua presença.
Podemos exalta-Lo, a partir de suas obras. Ele está
presente no mundo, - mas não é o mundo; está acima de
tudo; é exaltado e dignificado; paira acima de toda a
compreensão humana !
Desta
forma, tudo o que vive revela a sua Força Criadora: os
animais, os seres humanos, as estrelas, os planetas, os
sóis. Imaginar a Criação sem movimento é negar a própria
vida.
Como
Giordano Bruno poderia aceitar a Escolástica e a sua
visão acerca do Criador?
Bruno
não se comprazia apenas em combater o “pedantismo dos
doutores” que tinham em Aristóteles o seu mestre, mas
também em combater fortemente o dogmatismo. Este se
constitui na justificativa de toda a violência gerada
pelos sistemas religiosos na história da humanidade
terrena.
Bruno
compreendia o Universo como saído das Mãos Divinas, um
Todo orgânico, constituído por inumeráveis planetas.
Estes, por sua vez, seguindo o movimento que lhes é próprio,
se sucedem ininterruptamente na infinitude
universal.
Eis
as suas palavras:
I
– sobre os corpos infinitos que povoam o espaço e a
ligação que há entre os mesmos, constituindo a
unidade: “(...) confirmamos que existem terras
infinitas, sóis infinitos e éter infinito; ou, segundo
as afirmações de Demócrito e Epicuro, existem o cheio
e o vácuo infinitos, um ínsito no outro. E existem
diferentes espécies finitas, umas contidas pelas outras
e uma ordenadas para as outras. E todas essas espécies,
mesmo diversas, concorrem todas para a construção de
um inteiro universo infinito, e para a construção de
infinitas partes do infinito, pois de infinitas terras
semelhantes a essa se origina, em ato, uma terra
infinita, não como uma só entidade contínua, mas como
uma unidade constituída pela inumerável multidão
delas.” 136
II – sobre o movimento que se opera em todos eles, o
que contribui para a infinitude do Universo: “Todavia
sendo o universo infinito e todos os seus corpos
transmutáveis, consequentemente, todos difundem sempre
partes de si e sempre a eles voltam, emitem algo próprio
e recolhem o que é alheio. Não considero coisa absurda
ou não conveniente, pelo contrário, muito possível e
natural, que existam transmutações finitas que podem
afetar um sujeito; e que partículas de terra vagueiem
pelo éter e se aproximem, através do espaço imenso,
quer de um corpo quer de outro, da mesma maneira que
podemos ver as mesmas partículas mudar de lugar, de
organização e de forma, enquanto permanecem ainda
perto de nós. Do que se conclui que, se esta terra é
perpétua e eterna, não o é pela consistência das
suas próprias partes e dos seus próprio indivíduos,
mas pela vicissitude de outros que ela difunde e de
outros que lhes sucedem no lugar daqueles; de forma que,
embora possuindo sempre a mesma alma e a mesma inteligência,
o corpo sempre muda e se renova nas várias partes.
(...) pois estamos continuamente em transmutação, a
qual faz com que cheguem a nós continuamente novos átomos
e de nós partam aqueles anteriormente acolhidos."
137
(133) Id. ibid. .p. 67-68
(134) Nicola Abbagnano. História da Filosofia, vol. IV, p. 20
(135) Ibid., p. 21
(136) Giordano Bruno. O Infinito, o Universo e os Mundos, São Paulo: Editora Abril, 1978. p. 34.
(137) Ibid., 1978, p. 34.
O
pensamento bruniano confirma a Unidade e a Infinitude do
Universo (porque composto de inumeráveis mundos), tendo
o movimento como princípio fundamental. Não é pois de
se estranhar que esta categoria esteja presente na
filosofia hermética que tanto influenciou Bruno.
A
separação que imaginamos existir é produto do
intelecto desprovido da Intuição (Graça). Tudo está
interligado. Essa idéia de “separação”, reforçada
no decorrer dos tempos, desviou os seres humanos da Lei
Universal, levando-nos a pensar a vida material
desligada da vida espiritual; no homem desligado da
natureza; na natureza desligada da Potência Divina,
podendo aquela ser objeto de exploração e domínio.
A
idéia de totalidade também está presente nos escritos
apócrifos:
“Eu
sou o Todo: o Todo saiu de mim e o Todo chegou até mim.
Se rachardes a madeira, eu estarei lá; se erguerdes a
pedra, lá me encontrareis.” 138
Estas
palavras revelam a Unidade de todas as coisas, a ligação
constante entre o Céu e a Terra; entre o que está em
cima e o que está embaixo.
Sobre
movimento e repouso encontramos na mesma obra:
“Se
eles vos dizem ´De onde vindes?´, dizei-lhes: ‘Nós
viemos da luz, do lugar onde a luz nasceu dela mesma;
ela (se ergue) e revelou-se em sua imagem’. Se eles
vos dizem ‘Quem sois vós?’, dizei-lhes: ‘Nós
somos seus filhos, pois nós somos os eleitos do Pai
Vivo’. Se eles vos perguntam: ‘Qual é o sinal do
vosso Pai que está em vós?’, dizei-lhes: É
movimento e repouso.’" 139
Tudo
está no Todo! Não seria esse o momento de voltarmos a
discutir as tradições antigas, principalmente as que
tratam o Universo e a Criação com uma visão de
totalidade? Não seria o tempo de revisarmos alguns dos
conceitos que temos como verdade absoluta, reconhecermos
os erros históricos dos sistemas políticos e
religiosos e darmos um passo para uma mudança de
paradigma?
Rever
os conceitos e os modelos de comportamento que nos
separam da Criação, da Bondade e do Amor Divino; rever
as leis que regulam as relações sociais e o direito de
posse sobre o mundo e sobre as pessoas, as quais só têm
gerado desequilíbrio.
Abandonar
o que está ultrapassado e retomar a caminhada a partir
de conceitos morais e éticos que nos liguem à Harmonia
Universal e nos livrem do tempo de insegurança e violência
no qual nos encontramos.
Abandonar
tudo? Evidente que não, mas apenas os modelos de
comportamento que nos conduzem ao egoísmo, à luta de
todos entre todos e em relação ao descaso à vida e ao
Universo.
Tudo
o que vive merece ser cuidado. Que a humanidade se
renove e que possa viver de acordo com as Leis da Criação.
Que
seja essa a sua oração para o novo milênio:
“Acreditamos
que a nossa propriedade mais preciosa é a Vida.
Acreditamos que mobilizaremos todas as forças da Vida
contra as forças da morte.
Acreditamos que a compreensão mútua conduz à mútua
cooperação; que a mútua cooperação conduz à Paz; e
que a Paz é o único modo de sobrevivência da
humanidade.
Acreditamos que, em vez de desperdiçar, preservaremos
nossos recursos naturais, que são a herança de nossos
filhos.
Acreditamos que evitaremos a poluição do nosso ar, da
nossa água e do nosso solo, precondições básicas da
Vida.
Acreditamos que preservaremos a vegetação do nosso
planeta: a relva humilde, que chegou há cinqüenta milhões
de anos, e as árvores majestosas, que chegaram há
vinte milhões de anos, a fim de preparar o nosso
planeta para a humanidade.
Acreditamos que só comeremos alimentos frescos, puros,
naturais e integrais, sem substância químicas e sem
processamento artificial.
Acreditamos que levaremos uma vida simples, natural e
criativa, absorvendo todas as fontes de energia,
harmonia e conhecimentos, dentro e em torno de nós.
Acreditamos que o aprimoramento da vida e da humanidade
no nosso planeta deve começar por esforços
individuais, assim como o todo depende dos átomos que o
compõem.
Acreditamos na Paternidade de Deus, na Maternidade da
Natureza e na Fraternidade do Homem.” 140
(138) Nag Hammadi, tradução de R. Kuntzmann e J.D. Dubois, Paulinas, Editora, p. 58.
(139) Ibid., p. 55
(140) Composto em Paris, 1928, por Romain Rolland e Edmond Bordeaux Szekely. Citado no livro Os ensinamentos dos Essênios, de Edmond Bordeaux Szekely, São Paulo, Editora Pensamento, 1981, p. 5.
