O Altíssimo, está presente no tempo, no espaço e na matéria, já que tudo provém Dele. Sendo a Causa Primeira de todas as coisas, Ele não se confunde com elas, estando ao mesmo tempo fora do mundo, mas manifestado através das Emanações ou Atributos. Estes são identificados na tradição judaica como: Potência Divina, Sabedoria Infinita, Inteligência Divina, Misericórdia, Força, Beleza, Vitória sobre a morte, Glória e Repouso, Fecundação e Reino.
Sobre a manifestação do Criador no mundo através de Emanações ou Atributos, encontramos em Bruno uma atitude de prudência em relação a este princípio. Para ele, a noção que temos do Princípio e da Causa Primeira é apenas uma noção inferior ou vestígio de Deus, pois tudo se origina de sua Vontade e Bondade. Estas constituem o princípio de sua atuação, de onde provém o efeito universal, que identificamos como Criação. Tudo o que conhecemos da Divina Substância o fazemos por analogia ou por vestígios, tornando-se necessário “compreender a analogia sem comparar as proporções.67” Encontramos, aqui, influência de Nicolau de Cusa:
“Enquanto concebo um criador que cria, estou ainda para cá do muro do Paraíso. Do mesmo modo, enquanto concebo um criador criável, ainda não terei entrado, mas estou no muro. Quando, no entanto, te vejo como a infinidade absoluta à qual não convém nem nome de criador, que cria nem o de criador criável, começo então a ver-te mais claramente e entrar no Jardim das Delícias, porque nunca és nada de semelhante ao que pode ser dito ou concebido, mas absolutamente sobreexaltado ao infinito acima de tudo isso.” 68
Ele tem forte significação para a Filosofia bruniana, porque se colocou além das discussões que marcavam o final da Idade Média e início da Idade Moderna, ao reafirmar a visão transcendente do Criador e proclamar também a sua imanência. Para tal, utilizou três conceitos básicos: “complicatio”; “explicatio” e contração.
A Essência das Essências, revela-se como “complicatio”, pelo fato de incluir em si mesma todas as coisas. Torna-se “explicatio” porque todas as coisas O revelam. É contração, porque o Universo, ao manifestá-Lo, o faz apenas em parte e não na totalidade. Identificar Giordano Bruno como um opositor da transcendência e um defensor exclusivo da imanência é negar a influência de Nicolau de Cusa, o que não pode ser feito, por dois motivos: o primeiro é que Bruno faz referência a Nicolau de Cusa no decorrer da Obra Acerca do Infinito, do Universo e dos
Mundos; e o segundo, encontra-se nas explicações sobre a Divindade encontradas ao longo da obra,
A Causa, o Princípio e o Uno. “Chama-se causa aquilo que concorre, a partir do exterior, para a produção da coisa e cujo ser acha-se fora da composição, como é o caso da causa eficiente e da causa final, às quais está subordinada a causa produzida.”
69
Na discussão de Bruno acerca do Entendimento Universal , identificamos o Atributo da Inteligência Divina como faculdade primeira e principal da alma do mundo. Ela [a Inteligência Divina] tudo preenche; ilumina o Universo e dirige a natureza.
Diferentes interpretações foram dadas pelas várias escolas apontadas por Bruno, entre as quais citamos os pitagóricos, os platônicos, os magos (que nós entendemos tratarem-se dos cabalistas), Orfeu, Empédocles e Plotino. 70
Para os platônicos, o Entendimento Universal é visto como o
forjador do mundo. Este, procede do mundo superior(Uno) e encaminha-se para o mundo sensível (dividido em muitos). É Ele que tudo produz.
Para os magos, é o
semeador, porque penetra e compõe a matéria com todas as suas formas, combinando-as com uma ordem tal que é impossível atribuí-las à causalidade.
Citando Orfeu, Bruno designa o entendimento universal como
olho do mundo, porque vê o interior e o exterior de todas as coisas naturais, mantendo assim a proporção adequada a todas as formas. Lembramos aqui outra aproximação com Nicolau de Cusa, que faz uma reflexão em torno de olhar do Criador sobre o mundo; ao mesmo tempo em que vê o mundo, também é visto por ele, embora em proporções diferentes:
“Mas o teu olhar, sendo olhos ou espelhos vivos, vê em si todas as coisas. Ele é antes a causa de tudo o que é visível. Por isso abraça e vê todas as coisas na causa e razão de tudo, isto é, em si próprio. Os teus olhos voltam-se Senhor, para tudo sem se desviarem. E porque os nossos olhos se voltam para o objeto, decorre daí que o nosso olhar vê sob um ângulo quantitativo. Porém, o ângulo dos teus olhos, ó Deus, não é quantitativo, mas é infinito, ele é círculo e, mais ainda, esfera infinita, porque o teu olhar é o olho da esfericidade e da perfeição infinita.” 71
(67) Id., ibid., p.46-47
(68) Nicolau de Cusa, op. cit., p.177.
(69) Giordano Bruno, A Causa, o Princípio e o Uno,
p.49.
(70) Id. ibid.,p.50.
(71) Nicolau de Cusa, op. cit., p.162.
Para Empédocles, o Entendimento Universal é identificado como o
princípio da diferenciação, porque a geração de uma coisa sucede da corrupção de outra.
Em
Acerca do Infinito, do Universo e dos Mundos, Bruno considera que sendo o Universo Infinito e todas os seus corpos passíveis de modificação, estes mesmo corpos transmitem partes de si e recebem outras partes, mudando de lugar, de organização e de forma.
72
Conclui que os corpos mudam e se renovam, sendo tal argumento válido para todos os seres viventes (natureza, animais e seres humanos).
Em Plotino, temos que o Entendimento Universal é o
pai e genitor, já que distribui as sementes no campo da natureza e dá origem às formas. De forma específica, Bruno O denomina
artista interior, como aquele que dá forma e figura à matéria a partir de dentro,
“como de dentro da semente ou da raiz faz brotar e desenvolver-se o tronco, do tronco saem os primeiros ramos, do interior dos primeiros ramos derivam-se os outros ramos e, destes, os renovos (...) De igual modo estende sua ação para os animais, primeiro a partir do germe, depois do centro do coração para os membros exteriores, e, em seguida, faz refluir para o coração as funções que tinha dispersado, e com o que enrola, (...) os fios que havia esticado.” 73
Identificamos nesta passagem a mesma concepção atribuída a Plotino. O sentido da afirmação “Distribuindo de igual modo a sua ação ao animais” reflete o mesmo Amor, a mesma Sabedoria e o mesmo Poder agindo no mundo (natureza, animais e seres humanos).
Bruno identifica, ainda, três tipos de entendimento: o Divino (que é tudo), o do mundo (que tudo faz) e o particular (que se torna tudo). De acordo com a Cabala Judaica, a Trindade expressa a lei universal da existência, sendo esta dividida em 3 planos: o Mundo Superior, o Mundo Mediano e o Mundo Inferior.
Estes três planos, por sua vez, recebem nomenclaturas diferentes conforme o objeto a ser observado:
(I) No ser humano, o mundo superior é o Espírito; o mundo mediano é a própria vida, considerada um princípio animador, a partir do sistema nervoso simpático e vasos sangüíneos; o mundo inferior é o corpo com suas funções digestivas. O corpo, por sua vez, divide-se em três membros: cabeça, peito e ventre.
(II) No Plano Divino, de onde provêm as Emanações ou Atributos do Criador, encontramos: o Mundo da Criação que reflete o movimento e revela não individualidades, mas coletividades (mundo dos anjos); o Mundo da formação ou mundo dos entes espirituais invisíveis (espírito) e o mundo da produção, representado pelo Universo ou pelo mundo no qual nos movemos. A percepção que temos deste mundo restringe-se às coisas mais inferiores e materializadas.
Para Bruno, o entendimento é uma faculdade da alma do mundo e esta é a inteligência que dirige o Universo. Podemos defini-la, ainda, como a Vontade Divina que atua sobre toda a Criação, dando-lhe não apenas forma mas também movimento, que se identifica com a vida.
À inteligência que dirige o Universo Bruno designava “mente por sobre as coisas”, que nós traduzimos pelo termo Altíssimo e Onipotente Senhor.
Continuando a análise da Visão Cosmológica, de Giordano Bruno, recorremos à obra “O homem diante do Universo”, de Dadeus Grings(1995), que apresenta o pensamento moderno como uma mudança de paradigma ou “subversão” da ordem estabelecida, que se expressa na posição do sol como “centro universal”
74. Aponta a Teoria Copernicana como uma nova visão da realidade material. Como pretender que a descoberta de Copérnico se refira apenas à realidade material?
Nos estudos de YATES(1964), encontramos referências que apontam para o significado esotérico do Sol. Cita Pitágoras e Filolau; indica ainda a Tradição Hermética que identifica o Sol a um demiurgo ou “segundo deus”. Essa indicação é retirada do Asclépio:.”
(72) Giordano Bruno, op. cit., P.34
(73) Id., A Causa, O Princípio e o Uno, p.50
(74) Dadeus Grings. O Homem diante do Universo. Porto
Alegre: EDIPUCRS 1995, p.9
“O
sol ilumina as demais estrelas, não tanto pelo poder da
sua luz, como pela sua divindade e santidade, e deves
considerá-lo ò Asclépio, como o segundo Deus,
governando todas as coisas e espalhando a sua luz por
todos os seres vivos do mundo, tanto para os que possuem
alma, como para os que não a possuem.” 74
Seguindo
a indicação de YATES(1964), encontramos no Corpus
Hermeticum referências à divindade solar: “ O
sol, deus supremo entre os deuses do céu, a quem todos
os deuses celestes cedem passagem como a seu rei i
dinastia, sim, o sol com seu talhe imenso, ele que é
maior que a terra e o mar, suporta ter acima de si
cumprindo duas revoluções os astros menores que
ele.” 75
Ainda
como referência à função sagrada do Sol, citamos o
Hino ao Deus Áton:76
“Tu
surges belo no horizonte do céu / Ó Aton vivo, que
deste início ao viver.
Quando te ergues no horizonte oriental todas as terras
enches de tua beleza.
Tu és belo, grande, resplandecente, excelso sobre todo
país;
Os teus raios iluminam as terras/ Até o limite de tudo
o que criaste.
Tu és Rá e conquistas até o seu limite. / Tu as unes
para o teu filho amado.
Tu está longe, mas os teus raios encontram-se sobre a
terra, / Tu está diante (da gente),
mas eles não vêem o teu caminho.
Quando tu vais em paz ao horizonte ocidental, / A terra
fica na escuridão como morta
Os que dormem encontram-se em suas camas, / As cabeças
cobertas com mantas,
Um olho não vê o outro. / Se roubassem seus bens que
se acham debaixo de suas cabeças,
/ Eles nem perceberiam.
Todos os leões saem de suas cavernas; / Todas as
serpentes, elas mordem,
A escuridão é (para eles) claro. / Jaz a terra em silêncio.
Seu criador repousa no horizonte. (...)
A terra inteira se põe a trabalhar. / Todo animal goza
de sua pastagem.
Árvores e relvas verdejam / Os pássaros voam de seus
ninhos,
Com as asas (em forma de) de adoração a tua essência
(ka)
Os animais selvagens pulam em seus pés.
Aqueles que vão embora, aqueles que pousam,
Eles vivem quando tu te levantes para eles. / As barcas
sobem e descem a corrente
Porque todos os caminhos se abrem quando tu surges.
Os peixes dos rios movem-se deslizando em tua direção
Os teus raios chegam ao fundo do mar.
Tu que procuras que o germe seja fecundo nas mulheres,
Tu que fazes a descendência nos homens,
Tu que fazer viver o filho no seio de sua mãe,
Que o acalentes para que não chore, / Tu nutriz de quem
ainda está no colo,
Que dás o ar para fazer viver tudo o que crias.
Quando cai do colo para a terra o dia do nascimento,
Tu lhes abres a boca para falar / E provês as suas
necessidades. ( ...)
Quão numerosas são as tuas obras! / Elas são
irreconhecíveis aos olhos (dos homens) / Tu,
Deus Único, afora de ti nenhum outro existe.
Tu criaste a terra ao teu desejo, / Quando tu estavas só,
Com os homens, o gado, e todos os animais selvagens.
E tudo o que há sobre a terra – e anda sobre seus pés
–
E tudo aquilo que está no espaço – e voa sobre suas
asas.” 77
Voltamos
ao Corpus Hermeticum78
e encontramos uma referência ao Sol como demiurgo,
aquele que dá tudo a todos e que espalha a luz e cujos
raios envolvem o mundo inteiro com o seu brilho (o que
está embaixo e o que está em cima). Está no meio do
mundo e expande a sua luz sem cessar; é o conservador e
a nutriz de toda espécie de seres, envolve tudo o que
está no mundo, dá seu volume a todos os seres que
nascem e os fortifica, ainda que os absorva em si mesmo
quando estes morrem.
Desta
forma, consideramos que os antigos atribuíam um
significado místico e mágico ao Sol. Místico por
admitirem a sua divindade; mágico porque ligado à
Tradição Hermética ou ao esoterismo antigo (pitagóricos
e platônicos).
Daí
o “Sol de Copérnico” estar no centro do mundo,
irradiando luz e espargindo a vida em todos os seus
quadrantes; que anuncia um novo dia, o movimento das
horas e das estações. O Sol de Copérnico, que
provocou uma revolução na ciência e no comportamento
da humanidade. Sendo ele o centro, a dimensão do homem
deveria ser medida em relação ao Sol, pois que este,
daquele dependia. Ele representa a luz de um novo dia, e
a terra, a partir de seu movimento, se nutre do Sol.
Giordano Bruno o considerou tão importante que ele não
poderia ser único. Há inúmeros mundos que por sua vez
dependem de incontáveis sóis.79
(77) Amenófis IV apud
Arborio Mella, – O Egito dos Faraós, p.182-183.
(78) Cap. XVI – As Definições: Asclépio ao Rei
Ammon, p.76-79
(79) Giordano Bruno. O Infinito, o Universo e os Mundos,
p.68-45.
Retomamos
agora a discussão iniciada por dom Dadeus Grings,
indicando que na verdade é incontestável o fato de
que, tanto para os antigos quanto para Copérnico e
Bruno, o Sol representava mais que uma realidade
material.
A
contemporaneidade, ao apropriar-se das descobertas científicas
modernas e colocando-as a serviço da “razão
instrumental”, desconsidera essa interpretação. A
humanidade contemporânea encontra-se desligada da
realidade espiritual que a cerca, desde a natureza,
passando pelos inumeráveis mundos, até a percepção
do Universo, como parte da Criação. Não seria esse
reconhecimento que levou Giordano Bruno a considerar que
a Terra é um organismo vivo, animado pela luz do Sol e
pela Verdade Divina? Diferentemente da maioria do seu
tempo, Bruno considerou não somente a interpretação
material do sistema de Copérnico, mas a sua realidade
sutil.
“Quem
, então, haveria de tratar esse homem (Copérnico) e
sua labuta como tão ignóbil descortesia que se
esquecesse de suas realizações e do seu aparecimento
divinamente ordenado, como a alvorada que precede o
pleno nascer do sol da antiga e verdadeira filosofia,
depois de ela ter estado durante séculos enterrada nas
sombrias cavernas da cega e invejosa ignorância; e quem
o julgaria, em razão de algumas omissões na sua obra,
como um pensador de igual nível ao do rebanho vulgar,
que oscila de um lado para outro conduzido pela brutal
superstição? Não deveria ele ser contado entre
aqueles cujo grande espírito lhes permitiu elevarem-se,
sob a fiel orientação do olho da inteligência
divina?” 80
Para
Bruno, Copérnico foi guiado pela Inteligência Divina;
o seu sistema estava envolto por um “selo” que
deveria ser aberto e um mistério a ser desvendado. Sua
grande esperança era de que novos sóis e novas terras
pudessem ser gradativamente descobertos, descortinando
os mistérios e os “segredos” do Universo, os quais
passariam à categoria de realidade incontestável.
Independentemente de serem explicadas ou provadas pelos
doutores e autoridades acadêmicas, era necessário
“ouvir a voz da natureza”, ou seja, compreender o
mundo aos olhos do espírito, pois somente este pode
chegar à Verdade, por tratar-se de uma realidade que
está além dos sentidos. Por isso, Bruno considerava:
“Não
são os sentidos que percebem o infinito; não é pelos
sentidos que chegamos a esta conclusão, porque o
infinito não pode ser objeto dos sentidos. Por isso
aquele que procura esclarecer tudo isto através dos
sentidos se parece com aquele que procura enxergar com
os olhos a substância e a essência; e aquele que as
negasse, por não serem sensíveis ou visíveis, negaria
a própria substância e o próprio ser. Mas deve haver
cautela em recorrer aos testemunho dos sentidos, os
quais admitimos só no campo das coisas sensíveis,
mesmo aceitando-os com certa suspeita, se não emitirem
um julgamento de acordo com a razão. É conveniente
para o intelecto julgar e dar razão das coisas ausentes
e divididas por espaço de tempo e de lugar. Nisto temos
suficiente testemunho no campo dos sentidos pelo fato de
não poderem nos contradizer e, ainda mais, por tornarem
evidente e confessarem sua incapacidade e insuficiência
na aparência da finitude causada pelos limites de seu
horizonte, tornando evidente como são inconstantes.
Ora, se conhecemos por experiência que eles nos enganam
com respeito à superfície do globo no qual nos
encontramos, muito mais devemos suspeitar deles quando
querem referir-se ao côncavo céu estrelado.” 81
Na
verdade essas palavras não foram inspiradas, mas
proferidas por Jesus Cristo: “Se não acreditais
quando vos falo das coisas do mundo, não acontecerá o
mesmo em relação às coisas celestes?” É necessário
dar ouvidos à intuição e deixar falar o espírito.
Segundo
Grings(1995), a Cosmologia lança uma ponte entre a visão
humanista e científica do mundo. Para ele, o objeto de
estudo da Cosmologia é o mundo.82
(80) BRUNO apud Frances
Yates, 1964, p.264.
(81) Id., O Infinito, o Universo e os Mundos. p.15-16.
(82) Dadeus Grings, op. cit., 1995, p.10
Mas
o que é o mundo? É o nosso planeta? E por que apenas
ele? Não seria o mundo algo maior? Por que dizemos
“mundo” e não “mundos”?
Considerarmos
que a Cosmologia de Giordano Bruno visava expandir a
concepção científica ao se referir ao inumeráveis
mundos. O que Bruno procurou ampliar, a razão científica
exacerbada – hoje designada “razão instrumental”
-, reduziu. E apesar de todo o progresso material o
homem contemporâneo ainda age como se a terra fosse o
centro do Universo. Em seu aspecto material, o progresso
científico expandiu as possibilidades humanas; porém
reduziu significativamente a abertura do espírito para
outras realidades: as que estão além da razão, mas
que poder ser reconhecidas na atuação da natureza.
Por
que falamos do nosso mundo, do sol, das estrelas e da
nossa galáxia como se fossem únicos? Por que nos
condenamos a uma “solidão cósmica” quando na
verdade sabemos que há outros mundos e que estes bem
devem servir como morada a outras humanidades?
Por
isso reafirmamos que Giordano Bruno nos tira da solidão
cósmica em que vivíamos, ao demonstrar que os inumeráveis
mundos desse Universo Infinito são habitados. Não
sendo, portanto, a Terra o centro do Universo, nem a
natureza e os seus habitantes, as únicas obras da Criação.
Ela é uma só e dela faz parte não apenas a Terra na
qual habitamos, mas também os inumeráveis mundos que
se movem pelo Universo!
Onde
se encontra a nossa compreensão, senão movida
unicamente pela razão instrumental e por uma ciência
que age através do princípio de autoridade e do
dogmatismo? A humanidade contemporânea teima em aceitar
como verdade apenas o que pode ser quantificado,
enumerado, medido pela ciência, que, desprovida de
sentimento e de uma espiritualidade verdadeira, sufoca a
intuição e a voz do espírito; essa ciência, tal qual
as religiões dogmáticas, se apega à letra e esquece o
que vivifica. Esquecemos dos valores do Ser como
Bondade, Beleza, Unidade e Verdade, que são
considerados pela Cabala como Atributos do Ser Criador. 83
Admitia
que “assim como seria um mal que este espaço não
fosse pleno, isto é, que este mundo não existisse; não
o seria menos (...) que todo o espaço não fosse pleno;
e, por conseqüência, o Universo será de dimensão
infinita e os mundo serão inumeráveis.” 84
A
existência do nosso mundo é concebida como um bem,
pois, se assim não fosse, onde estaríamos? Da mesma
forma, a Bondade Divina se faz presente em outros
mundos. Temos certeza da existência de outros mundos e
boa parte da humanidade considera ser o Universo uma
Criação Divina. Por que então a Bondade por excelência
se expressaria apenas em uma parte da sua Criação, no
caso o nosso planeta? Se assim fosse, onde estaria a
Perfeição? E se esta lhe faltasse, como poderia dar
nascimento a todas as coisas?
Não
podendo negar a Perfeição, porque esta é perceptível
através das leis presentes na natureza e já
codificadas pela nossa ciência, não podemos fugir da
Verdade: existe um Criador que é Bom e por sua bondade
criou todas as coisas, todos os mundos e neles semeou a
vida!
É
incorpóreo e está muito acima da nossa compreensão;
contudo, podemos senti-Lo através de seus atributos.
Revelar-se, fazer-se presente, fazer-se sentir; é
atuar, dar movimento. É preencher todo o espaço e não
estar submetido ao tempo; é estar acima das determinações
físicas que regem o nosso mundo material.
Na
Criação e nesse atuar encontram-se a Bondade a
Grandeza. Para Bruno, “a grandeza de Deus não
consiste de modo algum na dimensão corporal (ressalvo
que o mundo não lhe acrescenta coisa alguma), assim não
devemos pensar que a grandeza do seu simulacro consista
na maior ou menor grandeza de suas dimensões.” 85
Encontramos
no Corpus Hermeticum: “... a amplitude do
Bem é tão grande quanto a realidade de todos os seres
e dos corpos e dos incorpóreos e dos sensíveis e dos
inteligíveis. Eis o que é o Bem, eis o que é Deus”.
Nenhuma outra coisa pode ser chamada de boa; todos
pronunciam a palavra Bem, mas não percebem o que ela
pode ser; por isso não podem compreender o Criador; o
Bem é inseparável Dele. A designação do Criador como
o Bem, não é um título honorífico, mas é parte
Dele, pois “o ser bom é aquele que tudo dá e nada
recebe”. Nada recebe, porque de nada carece. É
Pleno, é a Verdade, é o Bem.86
(83) Discutidos nas páginas
30 e 31 deste trabalho.
(84) Giordano Bruno, O Infinito, o Universo e os Mundos,
São Paulo: Abril Cultural, 1978 , p. 17-18
(85) Id. ibid., 1978, p.19
(86) Hermes Trismegistus. São Paulo: Hemus, 1974,
p.22-23
Ao
tratarmos da Cosmologia, nos referimos não só ao
mundo, mas também ao ser humano e ao Criador dos
Mundos. Poderíamos dizer que a Cosmologia nos liga com
a Ontologia? Na verdade, entre todas as coisas e todos
os seres que compõem o Universo, há uma ligação, em
alguns momentos física e material, em outros, uma ligação
profundamente espiritual, porque transcende a nossa
compreensão meramente formal e racional. Está além da
“razão instrumental”. Talvez aí esteja um
dos caminhos da liberdade: superar a razão instrumental
e compreender a Unidade, a Verdade, a Bondade, a Beleza,
a Justiça e todos os Atributos que revelam o Criador.
Falar
da Unidade é falar do Criador. Porém, como falar d´Ele
ou defini-Lo, a partir da ‘razão instrumental’ ,
que tudo pretende colocar em seus limites, para julgar
se é verdadeiro ou falso?
Faríamos
apenas um exercício vão e não chegaríamos a nenhuma
conclusão, porque Ele está além das medidas humanas.
Podemos compreendê-Lo através dos seus atributos e da
sua manifestação no mundo:
“Se
quiseres ver Deus, considera o sol, considera o curso da
luz, considera a ordem dos astros. Quem é que os mantém
em ordem? Toda ordem supõe, de fato, uma delimitação
quanto ao número e ao lugar. O sol, deus supremo entre
os deuses do céu, a quem todos os deuses celestes cedem
passagem como a seu rei e dinastia, sim, o sol com seu
talhe imenso, ele que é maior que a terra e o mar,
suporta ter acima de si cumprindo suas revoluções, os
astros menores que ele. (...) Quem é que encerrou o mar
em seus limites? Que estabeleceu a terra em seus
fundamentos? Pois existe alguém, Ó Tat, que é o
criador e o mestre das coisas. “ 88
Compreendermos
a criação, como uma expressão da Vontade Divina. Sem
pretender extenuar a nossa razão, nem encerrá-la numa
discussão estéril, devemos expressar, ainda que de
forma aproximada, a idéia do Ser Criador: Ele é o Ser
por excelência. O Ser do qual tudo decorre; a Perfeição
Total e Absoluta. Ou como Ele se revelou a Moisés:
“EU SOU AQUELE QUE SOU”.
Ou
ainda como nos diz Anselmo: “um ser do qual não se
pode dizer nada maior”, porque não poderíamos alcançá-Lo
pela nossa razão instrumental. Apesar de tantas obras
escritas pelos séculos adentro e do avançar de nossa
ciência, não há em nossa linguagem termo que possa
defini-Lo. Se nos é impossível uma definição, o
reconhecimento é plenamente possível. Podemos reconhecê-Lo
em suas obras, em nós mesmos, na natureza que nos
cerca, nos inumeráveis mundos criados e no Universo.
Referimo-nos àquela parte da Criação que designamos
como material e que pode ser captada pelos sentidos.
Mesmo somente a partir da nossa visão restrita não
podemos deixar de reconhecer a sua Magnitude. Se
prosseguirmos em nossas reflexões e nos apoiarmos em
Platão, que indica ser esse mundo uma cópia do mundo
verdadeiro, - que não se encontra no plano material -,
poderemos reconhecer que a Criação Divina está além
do que podemos ver.
Em
Giordano Bruno, encontramos uma indicação desse
reconhecimento, ao afirmar que os sentidos não podem
perceber o Infinito, pois ele é imaterial. Cabe aos
sentidos a percepção daquilo que é material e está
submetido ao tempo e ao espaço. Essa reflexão pode ser
encontrada na seguinte passagem; ”... aquele que
procura esclarecer tudo isto através dos sentidos se
parece com aquele que procura enxergar com os olhos a
substância e a essência; e aquele que as negasse por não
serem sensíveis ou visíveis, negaria a própria substância
e o próprio ser.” 89
Considerando
que a Criação está acima e é anterior ao mundo
material, pois este é apenas uma cópia, se afigura em
nosso íntimo a idéia de o Ser Criador não pode ser
definido ou compreendido, mas reconhecido, como o
artista o é, por suas obras. Ele é, portanto,
incompreensível à nossa razão e aos nossos sentidos.
Não é aquilo que pensamos, mas o que não conseguimos
pensar; não é o que vemos, embora tais fenômenos nos
possam dar uma idéia de quem nos criou. Não é o que
sentimos, pois os sentimentos decorrem de experiências
humanas restritas ao tempo e ao espaço.
Quando
afirmamos que Ele é Amor, O colocamos acima das
qualidades humanas. O amor não é um sentimento, nem
decorre das experiências humanas. É diferente de nós
e se encontra acima das contingências materiais. Veio
do Alto, daí ser identificado como um dos Atributos
Divinos e não como um sentimento humano.
Devemos,
portanto, libertar o nosso pensamento dos conceitos
humanos acerca do Criador e deixar fluir a voz do espírito,
ou, como diz Bruno: “É necessário procurar
sempre, uma razão verdadeira e necessária (...) e
ouvir a voz da natureza.” 90
Procurar
uma razão verdadeira e necessária. Qual o sentido
dessa afirmação?
Continuando
a nossa discussão acerca da impossibilidade de
reconhecermos a grandeza e magnitude divinas a partir da
razão instrumental, concluímos que a razão
verdadeira e necessária relaciona-se às expressões
do espírito ou intuição. As razões verdadeiras e
necessárias estão presentes na natureza e nas leis que
a regem: Equilíbrio, Perfeição, Justiça e Amor.
A
natureza reflete o Equilíbrio, a Perfeição e a Justiça
através das leis físicas – lei da gravidade, da
queda e do equilíbrio dos corpos e da atuação das forças
físicas. E o amor? Este se reflete nas dádivas que a
natureza oferece a toda a humanidade, em todos os
tempos: seus frutos e flores, a germinação, a
colheita, a ação da água, do vento e do fogo. Tudo
vibra, tudo se movimenta, para cima, para baixo, não
importa a direção.
Chegamos
a um ponto que consideramos fundamental para a nossa
argumentação: o movimento como lei básica de toda a
Criação. As estrelas, os planetas, os inumeráveis
mundos, o nosso corpo, as células, tudo está em
movimento. Desta forma, podemos dizer que, a partir do
movimento, as coisas foram criadas. Pelo movimento tudo
se forma; ele é portanto, contínuo e mantém todas as
coisas criadas. Como nos indica o Apóstolo Paulo:
“por Ele nos movemos e n´Ele nos mantemos.”
“No
princípio era o Verbo. O Verbo estava com Deus e o
Verbo era Deus. Todas as coisas foram feitas por Ele.
Sem Ele nada se fez. Nele
estava a Vida e a Vida era a Luz. A Luz, porém, era
Deus. O Verbo, a Vida e a Luz eram três emanações do
Eterno. A Luz de deus resplandeceu nas trevas, mas as
trevas não o compreenderam.” 91
Sendo
uma lei básica da Criação, o movimento se faz
presente nas leis naturais, mais tarde codificadas pela
nossa ciência (Física, Astronomia, Química, História,
Filosofia).
Reportamo-nos
a Giordano Bruno, para quem o movimento expressava a
Inteligência Divina. Tendo encontrado essa mesma indicação
no Hermetismo, Bruno se deixa guiar pela intuição e
abre o seu entendimento à sabedoria dos antigos. Sobre
o movimento o Corpus Hermeticum afirma:
“Todo
móvel é movido em qualquer coisa e por qualquer coisa;
Aquilo no que o móvel se move é maior; desta forma o
motor é mais forte que o móvel.
O mundo é um corpo que é movido.” 92
Em
Bruno, encontramos: se tudo se movimenta, o que nos dá
a sensação de estarmos parados? Somente a ilusão, a
pura ilusão, nos dá a sensação de que a nossa terra
é o centro do Universo e que parece imóvel. Nada está
parado, mas tudo se movimenta, no espaço incomensurável
e magnifico!
(87) Discutida na página 10.
(88) Id. ibid,. 1974, p.32.
(89) Id., o Infinito, o Universo e os Mundos, p.17
(90) BRUNO apud Rodolfo Mondolfo, Figuras e Idéias da
Renascença, p.59-60
(91) O Livro de Jesus, o Amor de Deus. São Paulo: Ordem
do Graal na Terra, p.121
(92) Hermes Trismegistus, p.19-20
