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Pedras de Verdade – Artigos de Roberto C. P. Júnior Artigos de Roberto C. P. Júnior

México

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Em janeiro de 1995, enquanto o mundo acompanhava estupefato as terríveis cenas de destruição do terremoto de Kobe no Japão, que matou mais de cinco mil pessoas, um outro terremoto abalava literalmente o sistema financeiro internacional: em 15 dias o peso mexicano desvalorizou-se em 60%, provocando uma fuga em massa de divisas do país e desencadeando uma onda de desconfiança em todos os mercados financeiros dos países em desenvolvimento, o chamado "efeito tequila" (bebida nacional mexicana).

Temendo que a crise se alastrasse por todo o mundo, com resultados catastróficos, o governo americano arregimentou um inédito pacote de ajuda ao México no valor de 47,5 bilhões de dólares.

O mundo econômico parou então para tomar fôlego e respirar aliviado. A Itália, por exemplo, com sua dívida de 1,2 trilhão de dólares, equivalente a 120% do seu PIB, havia escapado de um colapso econômico certo. Os suspiros mundiais de alívio foram, todavia, acompanhados de declarações que não escondiam a perplexidade e o medo:

Charles Dallara
(Instituto Internacional de Finanças - EUA)

Michel Camdessus
(diretor-gerente do FMI)

 

Maria Luisa Martínez Lara
(dona de casa mexicana)

Juan Fernandez Gomes
(arquiteto mexicano — declaração feita um ano após a crise)

Só no mês de janeiro de 1995, 250 mil mexicanos perderam seus empregos e 4 mil empresas fecharam as portas. Em abril daquele ano, as vendas no varejo caíram 32,7% , fato que provocou "enorme impacto nos círculos governamentais", segundo uma matéria de jornal. Em maio, a taxa de desemprego era 106% maior do que a do mesmo período em 1994. Em junho havia no país 2,2 milhões de desempregados, metade dos quais haviam perdido o emprego nos primeiros quatro meses do ano. O PIB do país caiu 10,5% no segundo trimestre de 95 em relação ao mesmo período de 94, a maior queda desde os anos 30, época da Grande Depressão.

A inadimplência dos mexicanos com o sistema bancário do país havia gerado até então 3.700 prisões, 387 suicídios e 1 milhão e 730 mil bens embargados pela Justiça. Nada disso impediu que em agosto de 95 o sistema bancário mexicano chegasse à beira da falência, em decorrência do gigantesco aumento das carteiras vencidas. Enquanto isso, o porta-voz do Ministério do Trabalho tentava tranqüilizar a população, declarando sucintamente que "até o final do ano a situação deveria melhorar". O ministro da Economia foi mais realista numa palestra para investidores em Nova York, em setembro de 1995: "O México está neste momento no fundo do poço em termos de recessão, e a maior preocupação do governo agora é com o desemprego."

Em junho de 1995, a dívida externa mexicana já era a maior do mundo, com seus 147,5 bilhões de dólares. Dois meses depois atingia 165 bilhões de dólares. A previsão era de que até o final do ano atingisse os 200 bilhões de dólares, um recorde inimaginável desde o início da história econômica mundial.

Em outubro de 1995 o poder aquisitivo dos salários havia caído 25% em termos reais desde dezembro de 1994. O emprego informal (leia-se subemprego) representava então 45% do total da força de trabalho, o equivalente a 13 milhões de pessoas.

A rapidez e violência da crise mexicana deixou o mundo perplexo e o sistema financeiro internacional atônito. Mais do que qualquer outra crise econômica até então observada, esta havia trazido para as conversas cotidianas, tanto de mexicanos como de outros povos que a acompanharam, temas como desemprego, queda do padrão de vida, angústia em relação ao futuro… em suma: insegurança.

Numa matéria intitulada "Mexicanos ficam perplexos", o jornalista Anthony de Palma do jornal americano The New York Times assim se referiu sobre o assunto em julho de 1995: "O que preocupa muitos mexicanos, no entanto, não é apenas o fato de terem de apertar os cintos. Eles se lembram como, há pouco mais de um ano, a economia mexicana era elogiada e o Primeiro Mundo parecia tão próximo. E o que assusta é exatamente isso: descobrir como um modo de vida pode desmoronar de um momento para o outro. Sem rede de proteção"[grifo meu].

Um ano depois da eclosão da crise a situação do país era a seguinte:

As notícias em 1996 continuaram no mesmo ritmo: Em fevereiro a economia registrou o pior resultado em 60 anos. Em maio, só a capital abrigava um milhão de desempregados, correspondendo a um terço da população economicamente ativa da metrópole. Em junho, o presidente informava que a crise já tinha consumido 25% do PIB (cerca de 70 bilhões de dólares). Em julho, metade da população do país estava desempregada. O número de crimes graves cresceu 15% em relação a 1995, que já havia aumentado 52% em relação a 1994.

A economia mexicana é hoje tão frágil, e o mundo financeiro tão interdependente, que uma simples onda de boatos deflagrada no início de 1996 — falando de renúncia de ministro, fechamento do Banco Central e golpe militar — foi suficiente para sacudir novamente a economia e fazer estremecer o mundo mais uma vez. Milhões de dólares foram gastos para segurar a cotação do peso, que numa queda histórica perdeu 40% do seu valor em um único dia.

Em janeiro de 1997, uma notícia surpreendente: o México teria saldado sua dívida com os Estados Unidos três anos antes do vencimento. Essa notícia certamente contribuiu para a reeleição do presidente americano, principalmente porque ninguém se preocupou em esclarecer que a dívida antiga fora saldada através de um novo endividamento… Em outubro, por conta já dos efeitos da crise asiática, o peso mexicano atingiu a pior cotação de todos os tempos, e de acordo com uma matéria jornalística, foi "o golpe mais duro desde a crise financeira de 1994/95". Um analista mexicano afirmou na época: "O mercado está extremamente nervoso, e o que vimos ontem foi um banho de sangue." Em novembro, o governo calculava entre 14 e 20 milhões o número de mexicanos que viviam abaixo da linha de miséria. O número de ambulantes na Cidade do México havia duplicado em relação à 1995, chegando a 150 mil pessoas, ou 500 mil, de acordo com a Associação de Ambulantes.