A PROFECIA DE MAX WEBER (20/04/2001)
O cidadão estava num avião voando de São Paulo para Nova York. Houve um atraso de uma hora. Isso não é nada, uma hora passa logo, mas o salão do aeroporto internacional de Guarulhos foi lotando. Não havia mais cadeira vaga. No banheiro formava-se fila. Jovens e crianças sentavam no chão, no carpete de cor escura, apropriado para ocultar a poeira.
Enfim entraram no avião. Então pegou o livro que comprara na livraria do aeroporto e começou a ler. Muito já ouvira falar, mas nunca tinha lido: "A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo", de Max Weber, originalmente publicado em 1904. Há quase um século.
O comandante entrou no ar para dar informações. O vôo duraria cerca de 9 horas e o atraso decorrera de um problema técnico no vídeo. Desejava boa viagem a todos os passageiros de todas as classes.
Lendo a Introdução, o passageiro ficou perplexo com o que ia lendo:
"O impulso para o ganho", "a ânsia do lucro, de lucro monetário o mais alto possível não tem nada a ver com o capitalismo". De fato, como escreveu o autor "esse impulso existiu e existe entre garçons, médicos, cocheiros, artistas, prostitutas, funcionários corruptos, soldados, ladrões, cruzados, jogadores e mendigos, ou seja em toda a espécie e condições de pessoas, em todas as épocas de todos os países da Terra, onde quer que, de alguma forma, se apresentou ou se apresenta, uma possibilidade objetiva para isso". Atualmente acoberta-se isso sob o manto da liberdade do mercado.
Curioso o autor não ter citado explicitamente banqueiros e proprietários de companhias aéreas que oferecem aos passageiros da classe econômica um espaço inferior ao mínimo que seria necessário para viagens de longa duração. Bem, isso pode ser porque naquele tempo as pessoas viajavam de carruagem ou navio, não havia avião.
Contudo a produção e circulação de bens, bem como operações de financiamentos a particulares, empresas ou Estados, são funções próprias da atividade humana. Se isso tem servido como trampolim para que em todas as épocas e em todos países, seres humanos de poucos escrúpulos tenham se aproveitado da situação para obter o máximo ganho com o mínimo custo, isso não pode simplesmente ser atribuído ao surgimento de uma oportunidade objetiva. Na verdade isso tem a ver com o desvirtuamento do real sentido da vida e à ausência de uma ética humana espiritualizada.
O ganho decorrente da atividade humana é um fato normal, sem que deva ser censurado, desde que a sua obtenção se tenha realizada com justiça e equilíbrio, tanto no que tange à correta remuneração dos trabalhadores, como na contraprestação oferecida aos clientes.
Mas, a cobiça pelo ganho máximo tem subido à cabeça dos seres humanos em geral, desde a base até ao topo da pirâmide social, onde em cima, os detentores do poder se juntam aos grupos econômicos para se auxiliarem mutuamente na conquista de seus objetivos, sem maiores dificuldades ou ressentimentos.
A desfiguração das palavras de Jesus provocaram enormes incompreensões. Conselhos individuais foram transformados em leis gerais, como o conselho pessoal dado ao jovem rico que se acorrentara à riqueza e ao comodismo que essa lhe propiciava. E a igreja que surgiu posteriormente não mantinha mais ligação com os ensinamentos originais de Cristo, apresentando-se porém, como a igreja cristã.
Jesus mesmo fazia parte da classe média, nunca passou necessidades e, junto com José, cuidava de um empreendimento rendoso de atendimento de encomendas de marcenaria. Era o que se podia chamar de pequeno empresário, tinha empregados, mestres e ajudantes. Geria uma bem conceituada oficina em Nazaré. Ademais tinha amigos de posses e freqüentava a casa de famílias ricas com plena desenvoltura.
A rejeição de Caifás e a traição de Judas pesaram fundo propiciando uma indesejável cisão de conceitos ao invés de uma interação, e o que surgiu nos últimos dois mil anos foram permanentes lutas e conflitos ideológicos que não trouxeram nada de bom para a real evolução humana.
O ser humano deve evoluir espiritualmente, mas isso não implica no abandono e descuido dos problemas de ordem material. Espiritual é espiritual, e material é material, que requer atenção e vigilância tanto quanto o espiritual.
Diante do comodismo e da indolência espiritual promovida pelos ensinamentos da Igreja, surgiu entre os protestantes o espírito da atividade humana voltada para aquilo que fora estabelecido pelas leis da Criação para alcançar o êxito e a paz. O progresso, tal como os protestantes o conceberam, possibilitou a diversificação do poder que passou a pender para a esfera econômica. Contudo não impulsionou a evolução humana, embora tenha produzido uma fabulosa riqueza patrimonial e financeira gerando porém muitos desequilíbrios, e a custa de uma elevada fatura de destruição ambiental.
O que o ser humano não pode fazer é colocar o seu desejo de ganho, a sua cobiça por dinheiro, acima dos Mandamentos recebidos por Moisés e da Mensagem transmitida por Jesus, para que isso não se transformasse em novo bezerro de ouro, arrastando a existência humana para o puro materialismo, sem que nada mais lhe reste de espiritual, desumanizando-a por completo, produzindo apenas feiura ao invés de beleza.
Max Weber descreveu a situação de um século atrás sob o amplo domínio de uma determinada concepção de vida. Resta saber como, com o seu espírito perscrutador, descreveria a situação no início do século 21. Certamente logo perceberia que estamos vivendo o estágio que profetizara: "Nesse caso, os últimos homens desse desenvolvimento cultural poderiam ser designados como especialistas sem espírito, sensualistas sem coração, nulidades que imaginam ter atingido um nível de civilização nunca antes alcançado".
Que futuro poderemos aguardar? O mundo áspero em que vivemos está em conexão direta com as distorcidas configurações dadas pelos seres humanos aos ensinamentos de Jesus. Caso tais configurações estivessem mais próximas dos ensinamentos originais expostos por Jesus, teríamos uma situação muito outra, tendendo para a plenitude do ser humano movido pelo saber do real significado da existência.
BENEDICTO ISMAEL CAMARGO DUTRA